

O Gafanhoto do Tempo
Um gafanhoto escalou o muro,
colidiu num vôo cego com a parede do meu quarto e ali passou a noite imóvel. Descansou o dia meditando no jardim. Reguei-o como se rega a flor, molhei seu disfarce de folha nova e ele nem me notou. E agora me observa do alto da parede. O tempo salta como ele e ele não o percebe. O inseto invasor vê meu sono agitado, pousa sobre o lençol, marcha por meu corpo e pisoteia as minhas costas. Viro-me na cama e ele foge assustado até a porta do armário. Inspeciona meus pequenos tesouros, não imagina o que seja um espelho, não entende meus livros, nem se interessa por meus discos. O gafanhoto do tempo escala um novo dia e quando eu abro os olhos o espião se disfarça de folha no quadro da parede! Antes de bocejar vejo-o tremendo, mas não me importo com a velha pintura. Abriu as asas e planou pelo espaço pousando sob a cama em que estou sentado. No escuro, vê meu pé entrando pelo túnel azul da calça jeans, enforcando-se lentamente no sapato apertado. Segue então para a luz, curioso por não ver um de meus pés. À beira da cama viu minhas mãos amarrarem o cadarço. Admirou por um instante o alto-relevo do solado aproximando-se de seu corpinho verde. Não se moveu o pobre... hipnotizado! E morreu esmagado sob meu pé direito... sob a luz da manhã... sob o peso da ignorância, sob o acaso da circunstância, sob a superioridade da evolução, sob a razão da fatalidade!
Bernardo Maciel
Enviado por Bernardo Maciel em 16/04/2009
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